segunda-feira, junho 05, 2017

O Comércio dos Nervos

ARMANDO DA SILVA CARVALHO

s.l. [Tomar], 1968
Nova Realidade
1.ª edição
21 cm x 12,2 cm
100 págs.
capa em cartolina preta revestida por sobrecapa de cujo inteligente desenho se ignora o autor
exemplar manuseado mas com o miolo limpo à excepção da folha de ante-rosto, em que sucessivos livreiros por onde o livro terá passado foram ou colando novos e arrancando velhos talões, ou escrevendo e apagando preços (o último canhoto visível remete para a livraria da Assírio & Alvim)
27,00 eur (IVA e portes incluídos)

Trata-se do segundo livro do poeta. E é um conjunto de versos que já denotava a fuga do escritor das águas contidas da Poesia 61 para o rio revolto do Surrealismo.
Apenas uma passagem:

«[...] Forçaste-me à renúncia
silogística do verso, à metáfora
gorda, ao corrimão num pulo
porque te estendes, inchas
e cobres tudo com teus lençóis abstractos.

Falar contigo é devolver-te
o uso descarado das palavras: apoiar
as vísceras sensíveis nos teus ombros
o peso da beleza quando se quer dinheiro
o riso dividido quando se quer um corpo
o sémen do futuro quando se quer morrer. [...]

Ouve cansaço: apalpo-te as orelhas
que intensas e comovendo os fracos
me tapam o nariz.
O cheiro da comida é assunto diário
em cada bairro
e todos temos pressa.
Um faro luminoso acode-nos ao sangue
mastigamos-te o mais prosaicamente:
– tu tens de recuar.»

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